No Dorso do Vento Norte George MacDonald
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Capítulo I. O Mezanino do Estábulo

Fui instado a contar-vos acerca do dorso do Vento Norte. Um antigo escritor grego menciona um povo que vivia para além dele, tão acomodado e bem-aventurado, que já não o pôde suportar e se afogou. A minha história não é a mesma que a dele. Não creio que Heródoto tivesse recebido o relato correto daquele lugar. Vou narrar-vos como se deu com um menino que lá esteve.

Ele morava num quarto baixo, sobre a casa de carruagens; e isso, de modo nenhum, ficava no dorso do Vento Norte, como muito bem sabia sua mãe. É que um dos lados do aposento era feito apenas de tábuas, e eram tábuas tão velhas que se podia enfiar um canivete através delas e atingir o Vento Norte — e então que o canivete e o Vento decidissem entre si qual era o mais afiado! Bem sei que, ao puxá-lo de volta, o vento se lançaria atrás dele como gato a rato, e logo se saberia que ali não era o dorso do Vento Norte. Ainda assim, esse quarto não era muito frio, exceto quando o Vento Norte soprava mais forte do que de costume: já o aposento com que tenho agora que ver era sempre frio, salvo no verão, quando o sol tomava o caso em suas próprias mãos. Na verdade, nem sei se devo chamá-lo "aposento"; era apenas o sótão onde se guardavam feno, palha e aveia para os cavalos.

E quando o pequeno Diamond — mas, alto lá: devo dizer-vos que seu pai, cocheiro, lhe dera o nome de seu cavalo predileto, e sua mãe não se opôs — quando, pois, o pequeno Diamond se deitava ali, no leito, ouvia os cavalos sob si a ruminar no escuro, ou a mover-se, sonolentos, em seus sonhos. É que o pai de Diamond lhe construíra uma cama no sótão, cercada de tábuas por todos os lados, pois tinham tão pouco espaço em seu canto sobre a casa de carruagens; e pusera o velho Diamond no estábulo sob a cama, por ser cavalo quieto, que não dormia de pé, mas se deitava como criatura razoável. Contudo, embora fosse surpreendentemente razoável, quando o jovem Diamond acordava no meio da noite e sentia o leito tremer ao sopro das rajadas do Vento Norte, não podia deixar de se perguntar se, caso o vento derrubasse a casa e ele fosse cair na manjedoura, o velho Diamond não acabaria por comê-lo antes de reconhecê-lo em sua camisa de dormir. E, embora o velho Diamond ficasse muito sossegado a noite inteira, ao despertar erguia-se como um terremoto; e então o pequeno Diamond sabia que horas eram, ou ao menos o que vinha a seguir — a saber: dormir de novo, o mais depressa que pudesse.

Havia feno a seus pés e feno à sua cabeça, empilhado em grandes fardos até o telhado. Por vezes, era apenas por um corredor estreito, com várias voltas, que parecia ter sido serrado especialmente para ele, que conseguia alcançar a cama. Pois o estoque de feno estava sempre ou em lenta vazante ou em súbita enchente. Por vezes, todo o espaço do sótão, com as janelinhas no telhado por onde as estrelas vinham espiar, se abria diante de seus olhos abertos, enquanto jazia no leito; por vezes, uma parede amarela de fibras cheirosas lhe cerrava a vista a menos de meio metro. Por vezes, quando a mãe o despia em seu quarto e lhe dizia que trotasse para a cama, ele se enfiava no coração do feno e ali ficava, pensando em como fazia frio lá fora, no vento, e como estava quente ali dentro, na sua cama — e que podia ir para ela quando quisesse, só que ainda não iria; deixaria primeiro que o frio o tocasse um pouco mais. E, quanto mais frio sentia por fora, tanto mais quente crescia o leito por dentro, até que, por fim, saltava para fora do feno, disparava como flecha para a cama, cobria-se e se aninhava, pensando que era um menino muito feliz. Nem de leve suspeitava que o vento entrava por uma fresta na parede e soprava ao seu redor a noite toda. Pois as costas da sua cama eram apenas de tábuas com uma polegada de espessura e, do outro lado delas, estava o Vento Norte.

Ora, como já disse, aquelas tábuas eram macias e esfarinhadas. É verdade que, do lado de fora, estavam alcatroadas; mas, em muitos pontos, eram mais isca do que tábua. Aconteceu, pois, que, tendo o miolo gasto ao redor, o pequeno Diamond, certa noite, depois de se deitar, deu por falta de um nó que saltara de uma delas, e o vento soprava sobre ele de modo frio e um tanto imperioso. Ora, ele não tinha gosto em deixar torto o que podia ser endireitado; assim, saltou outra vez da cama, apanhou um punhado de feno, torceu-o, dobrou-o ao meio e, fazendo dele uma espécie de rolha, enfiou-a no buraco da parede. Mas o vento pôs-se a soprar alto e zangado e, quando Diamond já caía no sono, poc! — a rolha voou para fora e lhe acertou o nariz, com força bastante para acordá-lo de vez e deixá-lo ouvir o vento assobiando agudo pelo orifício. Procurou sua rolha de feno, achou-a, tornou a enfiá-la mais firme e já tornava a cochilar quando, poc!, com um assobio irritado atrás dela, a rolha o atingiu de novo, desta vez na face. Levantou-se outra vez, fez um tampão novo de feno e tapou o buraco com severidade. Mas mal tornara a deitar-se — poc! —, veio ela bater-lhe na testa. Desistiu, puxou as cobertas por sobre a cabeça e logo dormia profundamente.

Embora o dia seguinte estivesse muito tempestuoso, Diamond esqueceu-se do buraco, ocupado que andou a fazer, ao lado do fogo da mãe, uma caverna com uma cadeira quebrada, um banquinho de três pernas e um cobertor — e depois a sentar-se dentro. A mãe, porém, deu com o buraco e colou sobre ele um pedacinho de papel pardo, de modo que, quando Diamond se aninhou na noite seguinte, não tinha por que pensar nele.

Pouco depois, contudo, ergueu a cabeça e escutou. Quem poderia estar falando com ele? O vento tornava a levantar-se, ficando muito alto, cheio de rajadas e assobios. Ele tinha certeza de que alguém falava — e muito perto, ali mesmo. Mas não se assustou, pois ainda não aprendera como se assustar; assim, sentou-se e atentou. Por fim, a voz, que, embora muito suave, soava um pouco zangada, pareceu vir de trás da cama. Chegou-se a ela e encostou o ouvido à parede. Então nada ouviu senão o vento, que soava, de fato, muito alto. Mas, no instante em que afastou a cabeça da parede, tornou a ouvir a voz, juntinho do ouvido. Tateou com a mão e topou com o pedacinho de papel que sua mãe colara sobre o buraco. Encostou-lhe o ouvido e então ouviu a voz com toda a nitidez. É que havia uma quina do papel solta e, por ali, como de uma boca na parede, a voz saía.

— O que pretendes, menininho — fechando a minha janela?

— Que janela? — perguntou Diamond.

— Tu a entupiste com feno três vezes ontem à noite. Tive de soprá-lo para fora três vezes.

— Não pode querer dizer esse buraquinho! Isso não é janela; é um buraco na minha cama.

— Eu não disse que era uma janela: disse que era a minha janela.

— Mas não pode ser janela, porque janelas são buracos para olhar para fora.

— Pois foi exatamente para isso que fiz esta janela.

— Mas você está do lado de fora: não pode querer uma janela.

— Estás bem enganado. Dizes que janelas servem para olhar para fora. Muito bem: eu estou na minha casa e quero janelas para olhar de dentro para fora.

— Mas você abriu uma janela para dentro da minha cama.

— Ora, tua mãe tem três janelas abertas para a minha sala de dança, e tu tens três para o meu sótão.

— Mas eu ouvi o pai dizer, quando minha mãe quis que ele abrisse uma janela através da parede, que era contra a lei, porque daria vista para o jardim do senhor Dyves.

A voz riu.

— A lei teria algum trabalho para me alcançar! — disse ela.

— Mas, se não é certo, veja — disse Diamond —, não adianta. Você não devia fazer.

— Sou tão alta que fico acima dessa lei — disse a voz.

— Então deves ter uma casa muito alta — disse Diamond.

— Sim, uma casa muito alta: as nuvens estão dentro dela.

— Ora, ora! — disse Diamond, refletindo um instante. — Acho, então, que não pode esperar que eu guarde uma janela na minha cama para você. Por que não abre uma janela na cama do senhor Dyves?

— Ninguém abre janela num monte de cinzas — disse a voz, um tanto triste. — Gosto de ver coisas bonitas das minhas janelas.

— Mas a cama dele deve ser mais bonita que a minha, embora a minha seja muito bonita — tão bonita que eu não poderia desejar melhor.

— Não é a cama que me importa: é o que está dentro dela… Mas vá, abre já essa janela.

— Bem, mamãe diz que eu não devo ser indelicado; mas isso é bem difícil. Veja: o vento norte vai soprar bem no meu rosto se eu abrir.

— Eu sou o Vento Norte.

— O-o-oh! — disse Diamond, pensativo. — Então promete não soprar no meu rosto se eu abrir a sua janela?

— Isso eu não posso prometer.

— Mas vai me dar dor de dente. Mamãe já está com ela.

— E que será de mim sem uma janela?

— Pois eu não sei. Só digo que vai ser pior para mim do que para você.

— Não; não será. Tu não ficarás pior por isso — eu te prometo. Tu ficarás muito melhor. Crê no que eu digo e faze o que te mando.

— Bem, posso puxar as cobertas por cima da cabeça — disse Diamond e, tateando com suas unhas finas, apanhou a beirada solta do papel e a arrancou de uma vez.

Entrou uma longa lança sibilante de frio e feriu-lhe o peitinho nu. Ele se enfiou apressado sob as cobertas, cobrindo-se por inteiro: já não havia papel entre ele e a voz, e ele sentiu-se um pouco — não exatamente assustado, já vos disse que não aprendera ainda a se assustar — mas, sim, estranho; pois que pessoa esquisita devia ser esse Vento Norte, que morava numa grande casa — chamada Ao-Ar-Livre, suponho, pensou Diamond — e abria janelas para dentro das camas alheias! Mas a voz tornou a falar; e ele a ouvia com toda a nitidez, mesmo debaixo das cobertas. Era agora uma voz ainda mais suave, embora seis vezes mais ampla e sonora que antes, e ele achou que tinha um certo tom de sua mãe.

— Como te chamas, menininho? — perguntou.

— Diamond — respondeu Diamond, debaixo das cobertas.

— Que nome engraçado!

— É um nome muito bonito — retrucou o dono.

— Não sei, não — disse a voz.

— Pois eu sei — replicou Diamond, um tanto ríspido.

— Sabes com quem estás falando?

— Não — disse Diamond.

E, na verdade, não sabia. Pois conhecer o nome de alguém não é o mesmo que conhecer a pessoa.

— Então não devo zangar-me contigo… Mas seria melhor que olhasses para ver.

— Diamond é um nome muito bonito — insistiu o menino, aborrecido de que não lhe dessem razão.

— Diamond é uma coisa inútil, antes — disse a voz.

— Não é verdade! Diamond é muito bom — tão grande quanto dois — e tão quieto a noite inteira! E não faz um barulho danado de manhã, quando se põe de pé sobre as quatro pernas enormes! Parece um trovão!

— Não me parece que saibas o que significa diamond.

— Ah, mas sei, sim! Diamond é um cavalo grande e bom; e ele dorme bem debaixo de mim. Ele é o velho Diamond, e eu sou o jovem Diamond; ou, se preferir, já que você é tão exigente, senhor Vento Norte, ele é o grande Diamond e eu sou o pequeno Diamond; e eu não sei de qual de nós o meu pai gosta mais.

Uma bela gargalhada, ampla, mas muito suave e musical, soou em algum lugar junto dele; mas Diamond manteve a cabeça debaixo das cobertas.

— Eu não sou o senhor Vento Norte — disse a voz.

— Mas você me disse que era o Vento Norte — insistiu Diamond.

— Eu não disse "senhor Vento Norte" — retrucou a voz.

— Pois eu digo; porque mamãe me ensina que devo ser educado.

— Então deixe que eu lhe diga que não acho nada educado chamar-me de "senhor".

— Bem, eu não sabia. Desculpe-me.

— Mas deverias saber.

— Eu não sei nada sobre isso.

— Eu sei. Não podes chamar de educado ficar aí deitado, com a cabeça debaixo das cobertas, falando comigo sem levantar os olhos para ver que espécie de pessoa te fala. Quero que saias comigo.

— Mas eu quero dormir — disse Diamond, quase chorando, pois não gostava de ser repreendido, mesmo quando merecia.

— Dormirás tanto melhor na noite de amanhã.

— Além disso — disse Diamond —, você está lá fora, no jardim do senhor Dyves, e eu não consigo chegar até lá. Só posso ir ao nosso quintal.

— Vais tirar a cabeça debaixo das cobertas? — disse a voz, um tantinho zangada.

— Não! — respondeu Diamond, meio irritado, meio assustado.

No mesmo instante em que disse a palavra, uma rajada tremenda arrombou uma das tábuas da parede e varreu as cobertas de cima de Diamond. Ele ergueu-se de súbito, tomado de terror.

Inclinava-se sobre ele o grande, belo e pálido rosto de uma mulher. Seus olhos escuros reluziam um pouco zangados, pois já começavam a faiscar; mas um tremor em seu doce lábio superior fazia-a parecer prestes a chorar. O mais estranho era que de sua cabeça se desprendia, em todas as direções, uma torrente de cabelos negros, de modo que a escuridão do sótão parecia tecida deles. Porém, quando Diamond a contemplava em muda estupefação — mesclada, todavia, de confiança, pois o menino estava enlevado com aquela beleza poderosa —, os cabelos começaram a recolher-se para fora da treva e desceram de novo em redor dela, até que seu rosto brilhou do meio da cabeleira como a lua de dentro de uma nuvem. De seus olhos vinha toda a luz com que Diamond via seu rosto e seus cabelos; e nada mais dele via. O vento cessara e passara.

— Virás comigo agora, pequeno Diamond? Lamento ter sido forçada a tratar-te com tal rudeza — disse a senhora.

— Irei; sim, irei — respondeu Diamond, estendendo-lhe os braços. — Mas… — acrescentou, deixando-os cair — como vou pegar minhas roupas? Estão no quarto da mamãe, e a porta está trancada.

— Ora, não te preocupes com roupas. Não sentirás frio. Eu cuidarei disso. Ninguém tem frio com o Vento Norte.

— Eu pensei que todos tivessem — disse Diamond.

— Esse é um grande engano. Quase todos o cometem. Estão com frio porque não estão com o Vento Norte, mas sem ele.

Se Diamond fosse um pouco mais velho, e se supusesse muito mais sábio, teria pensado que a senhora gracejava. Mas não era mais velho, nem se julgava mais sábio; e, por isso mesmo, entendeu-a suficientemente bem. Tornou a estender-lhe os braços. O rosto da senhora recuou um pouco.

— Segue-me, Diamond — disse ela.

— Sim — disse Diamond, apenas um pouco contrafeito.

— Não tens medo? — disse o Vento Norte.

— Não, senhora; mas mamãe nunca me deixaria sair sem sapatos: quanto às roupas, ela nunca falou nada, de modo que creio que não se importaria.

— Eu conheço muito bem tua mãe — disse a senhora. — É uma boa mulher. Visito-a muitas vezes. Estive com ela quando nasceste. Vi-a rir e chorar ao mesmo tempo. Amo tua mãe, Diamond.

— Mas então como não sabias o meu nome, senhora? E… devo chamar-lhe de senhora, senhora?

— Uma pergunta de cada vez, meu menino. Eu sabia bem teu nome, mas quis ouvir de tua boca. Não te lembras daquele dia, quando um homem zombava de teu nome… e como eu soprei a janela para dentro?

— Sim, sim — respondeu Diamond, ansioso. — Nossa janela se abre como uma porta, bem sobre a porta da casa de carruagens. E o vento — você, senhora — entrou e soprou a Bíblia das mãos do homem, e as folhas foram todas a voar, voar pelo chão; e minha mãe a apanhou e lha devolveu aberta, e ali…

— Estava o teu nome na Bíblia — a sexta pedra no peitoral do sumo sacerdote.

— Oh!… uma pedra, era? — disse Diamond. — Eu pensava que fosse um cavalo — isso, sim!

— Não importa. Um cavalo vale mais do que uma pedra em qualquer dia. Pois vês: sei tudo de ti e de tua mãe.

— Sim. Irei contigo.

— Agora, a próxima questão: não deves chamar-me de senhora. Deves chamar-me apenas pelo meu próprio nome — com respeito, bem entendido —, apenas Vento Norte.

— Pois bem, Vento Norte, você é tão bonita, que estou bem pronto a ir contigo.

— Não deves estar pronto para ir atrás de tudo quanto é belo de uma vez, Diamond.

— Mas o que é belo não pode ser mau. Você não é má, Vento Norte?

— Não; não sou má. Mas às vezes coisas belas se tornam más, fazendo o mal; e leva tempo até que a maldade estrague a beleza. Assim, meninos podem se enganar se vão atrás de coisas só porque são belas.

— Bem, mas irei contigo porque és bela e boa também.

— Ah, mas há outra coisa, Diamond: e se eu parecesse feia sem ser má… se eu mesma parecesse feia porque estava tornando belas as coisas feias? E então?

— Não compreendo bem, Vento Norte. Diga-me você: e então?

— Pois eu te digo. Se me vires com o rosto todo sombrio, não te assustes. Se me vires batendo asas como de morcego, grandes como todo o céu, não te assustes. Mesmo se me ouvires bramir dez vezes pior que a senhora Bill, a mulher do ferreiro — ou se me vires espreitando pelas janelas alheias como a Dona Bisbilhoteira, mulher do jardineiro —, deves crer que estou cumprindo o meu ofício. Sim, Diamond, se eu me transformar em serpente ou tigre, não deves soltar a minha mão, pois a minha mão não mudará na tua, se tu a segurares bem. Se a segurares, saberás quem eu sou o tempo todo, mesmo quando me olhares e eu não te parecer em nada o Vento Norte. Posso ter um aspecto muito terrível. Entendeste?

— Muito bem — disse o pequeno Diamond.

— Então vem — disse o Vento Norte, e desapareceu por trás da montanha de feno.

Diamond saiu da cama e a seguiu.