Das Highlands à fantasia: uma vida entre dois mundos
George MacDonald nasceu em 10 de dezembro de 1824 em Huntly, Aberdeenshire, nas Highlands escocesas. Descendia do Clã MacDonald de Glen Coe — uma das famílias que sofreram no massacre de 1692 — e cresceu em um ambiente invulgarmente letrado: seu tio materno, Mackintosh MacKay, era um notável scholar celta, editor do Dicionário Gaélico das Highlands e colecionador de contos de fadas e poesia oral celta. Seu avô paterno apoiara a publicação do Ossian de James Macpherson, o controverso poema épico baseado no Ciclo Feniano da mitologia celta que ajudou a desencadear o Romantismo europeu.
MacDonald graduou-se em química e física no King’s College, Aberdeen, em 1845. Passou os três anos seguintes lutando com questões de fé e vocação antes de iniciar estudos teológicos no Highbury College em 1848.
O púlpito e a expulsão
Em 1850, MacDonald foi nomeado ministro da Trinity Congregational Church, em Arundel. Seus sermões — que pregavam o amor universal de Deus e que todos eram capazes de redenção — não foram bem recebidos pela congregação calvinista. Seu salário foi cortado pela metade. Em maio de 1853, resignou.
A expulsão foi decisiva. MacDonald rejeitou a doutrina da substituição penal de Calvino — a ideia de que Cristo absorveu a ira de Deus no lugar dos pecadores — e ensinou em seu lugar que Cristo veio salvar as pessoas de seus pecados, não de uma penalidade divina. “Não derrotou e matou o mal ao deixar que todas as ondas e vagalhões de seu mar horrendo quebrassem sobre ele, passassem por cima dele e morressem sem retorno — gastassem sua fúria, caíssem vencidos e cessassem? Em verdade, foi assim que ele fez expiação!” Quando lhe explicaram a doutrina da predestinação pela primeira vez, MacDonald chorou.
Chesterton capturou a essência: somente um homem que “escapou” do calvinismo poderia dizer que “Deus é fácil de agradar e difícil de satisfazer.”
A invenção de um gênero
Em 1858, MacDonald publicou Phantastes: A Faerie Romance for Men and Women — o romance que inaugurou a fantasia adulta na Grã-Bretanha. Anodos entra em Fairy Land pela porta de um quarto vitoriano e descobre um mundo onde a beleza é perigosa, as sombras perseguem e a morte é uma forma de revelação. O livro não vendeu bem na época. Mas em 1916, um jovem ateu de 17 anos chamado C.S. Lewis comprou uma cópia usada na estação de trem de Leatherhead e foi transformado: “Não sabia o que aconteceu comigo. Não acreditei em nenhuma doutrina, mas algo aconteceu — Phantastes batizou a minha imaginação.”
Seguiram-se os grandes contos de fadas: Dealings with the Fairies (1867), contendo A Chave de Ouro e A Princesa Leve; No Dorso do Vento Norte (1871), o romance em que Diamond, filho de cocheiros, conhece uma mulher colossal feita de tempestade e viaja entre o sonho e a morte; A Princesa e o Goblin (1872), que deu a Chesterton “o senso de quão próximas estão as melhores e as piores coisas de nós desde o início”; e por fim Lilith (1895), seu romance mais sombrio e metafísico, onde os mortos dormem até estarem prontos para despertar — “aquele que não morrer não viverá.”
MacDonald declarou certa vez: “Escrevo não para crianças, mas para os que são como crianças, tenham eles cinco, cinquenta ou setenta e cinco anos.”
Lewis Carroll e a publicação de Alice
MacDonald serviu como mentor de Lewis Carroll. Em 1862, Carroll mostrou o manuscrito de Alice’s Adventures Underground à família MacDonald. A recepção entusiástica dos onze filhos de MacDonald — especialmente o pedido de Greville, de seis anos, de que houvesse “sessenta mil volumes” do livro — convenceu Carroll a submeter a obra para publicação. Carroll também fotografou vários dos filhos MacDonald, sendo um dos mais notáveis fotógrafos vitorianos.
MacDonald era também amigo de John Ruskin e serviu como intermediário no longo cortejo de Ruskin a Rose La Touche. Em sua tournée de palestras nos Estados Unidos (1872–1873), organizada pelo Boston Lyceum Bureau, falou para plateias de três mil pessoas e tornou-se amigo de Longfellow e Walt Whitman.
Bordighera e os últimos anos
Em 1877, MacDonald recebeu uma pensão da Civil List britânica. A partir de 1879, ele e sua família se estabeleceram em Bordighera, na Riviera dei Fiori, Ligúria, Itália — quase na fronteira com a França. Lá fundou a Casa Coraggio (Casa da Coragem), um centro cultural que se tornou um dos mais renomados da época, com apresentações de peças clássicas e leituras de Dante e Shakespeare. Escreveu quase metade de toda a sua produção literária nesse período.
A tuberculose assombrou a família: MacDonald perdeu sua mãe, dois irmãos, três filhos (Lilia, Mary Josephine e Maurice) e mais tarde uma neta para a doença. A morte de Lilia, sua primogênita, o abalou profundamente.
George MacDonald morreu em 18 de setembro de 1905, em Ashtead, Surrey, aos 80 anos. Foi cremado em Woking e suas cinzas enterradas em Bordighera, no cemitério inglês, junto com sua esposa Louisa e suas filhas Lilia e Grace.
A herança: de Lewis a Tolkien
A influência de MacDonald é verificável por declarações diretas dos próprios influenciados. C.S. Lewis não apenas o chamou de “meu mestre” — fez de MacDonald um personagem em O Grande Abismo (1945), escolhendo-o como guia espiritual no além. Na introdução à sua antologia de MacDonald (1947), Lewis escreveu: “Mal conheço outro escritor que pareça estar tão próximo — ou tão continuamente próximo — do próprio Espírito de Cristo.”
G.K. Chesterton creditou A Princesa e o Goblin como o livro que “fez diferença em toda a minha existência”. J.R.R. Tolkien, Madeleine L’Engle e David Lindsay integram a lista documentada dos que reconheceram sua dívida. A BBC o descreveu como o pai fundador da fantasia moderna.
Rolland Hein o chamou de “criador vitoriano de mitos”. William Raeper sintetizou a teologia de MacDonald como uma que “celebrava a redescoberta de Deus como Pai e buscava encorajar uma resposta intuitiva a Deus e a Cristo através do avivamento do espírito do leitor.”
Na página de um livro de MacDonald, estamos nas mesmas fontes que alimentaram Nárnia, o País das Maravilhas e a Terra-Média.