Capítulo I — As Moradas da Marca-Média
Conta a história que, em tempos idos, havia uma morada de homens junto a uma vasta floresta. Diante dela se estendia uma planície — não muito extensa, mas que era, por assim dizer, uma ilha no mar das matas, pois mesmo quando se permanecia em solo plano, divisavam-se árvores por toda a linha do horizonte. Quanto a colinas, mal se poderia dizer que houvesse; apenas suaves ondulações da terra aqui e ali, como os levantes das águas que por vezes se veem entre os redemoinhos de um rio fundo e veloz.
De ambos os lados — à direita e à esquerda — o cinto de árvores se prolongava até tocar a distância azulada, denso, cerrado e ininterrupto, salvo no ponto onde ele, junto da planície que envolvia, era cortado ao meio por um rio — tão largo quanto o Tâmisa em Sheene, quando a maré alta atinge seu auge —, mas tão veloz e revolto em redemoinhos, que denunciava montanhas não muito distantes, ainda que ocultas aos olhos.
Deve-se saber que aquela vasta clareira na floresta não era obra do acaso; conquanto o rio houvesse aberto caminho por onde os homens pudessem trilhar ao longo de sua corrente impetuosa, foi por mãos humanas que aquela ilha na mata foi formada.
Por muitas gerações, o povo que ali habitava aprendera o ofício de fundir ferro, de modo que não lhes faltavam utensílios de ferro e aço, fossem ferramentas de ofício ou armas de caça e de guerra. Foram homens daquele Povo que, descendo ao longo do rio, abriram aquela clareira. A história não diz de onde vieram, mas porventura das colinas e vales das montanhas distantes, ou mesmo de planícies e terras ainda mais remotas.
De todo modo, vieram descendo ao longo do rio: sobre suas águas, em jangadas; por suas margens, em carroças, a cavalo ou montados em seus bois; ou ainda a pé, até que lhes veio o desejo de ali permanecer. E então, conforme lhes coube o destino, detiveram sua jornada, e se espalharam por ambas as margens do rio, e combateram a floresta e suas criaturas selvagens, para que pudessem forjar para si um lugar de morada sobre a face da terra.
Derrubaram as árvores, queimaram os tocos para que a erva crescesse doce para seus bois, ovelhas e cavalos; represaram o rio onde fosse necessário, por toda a planície e até bem dentro da mata selvagem, a fim de refrear as cheias do inverno; construíram barcos para atravessar de um lado a outro, para descer com a corrente e também subir contra ela puxando por cordas. Lançaram redes e linhas nas correntes revoltas para pescar, e dali retiraram também madeira trazida de longe pelas águas e outras matérias; e das areias de suas águas rasas lavaram o cascalho à procura de ouro. E o rio tornou-se seu amigo, e eles o amaram, e lhe deram um nome, e o chamaram de Escuro, Vidrado e Água-da-Floresta-Tenebrosa; pois os nomes que lhe deram mudavam conforme mudavam as gerações dos homens.
Dessa maneira forjou aquele povo uma ilha no seio da Floresta-Tenebrosa, e ali estabeleceu seu lar, sustentando-o com variados labores, longos demais para contar. E desde o princípio chamaram essa clareira de Marca-Média; pois há de se saber que homens podiam viajar rio acima e rio abaixo pelas Águas-da-Floresta-Tenebrosa, e após meia jornada de sol, quer subindo, quer descendo, deparavam-se com outra clareira ou ilha no meio das matas. E estas se chamavam Marca-Superior e Marca-Inferior. Todas as três eram habitadas por homens de um só povo e um só sangue, que era conhecido como os Homens da Marca, embora aquele tronco de gente se ramificasse em muitos galhos, portadores de sinais diversos em batalha e no conselho, para que entre si fossem reconhecidos.
Ora, na própria Marca-Média havia muitas Casas de homens; pois assim chamavam, há gerações, aqueles que viviam sob um mesmo sinal de parentesco. O rio corria do Sul para o Norte, e tanto do lado Oriental quanto do lado Ocidental havia Casas daquele Povo; e suas moradas se erguiam junto à orla da floresta, de modo que entre elas e o rio sempre havia um espaço de cultivo e de pasto.
A história conta de uma dessas Casas, cujas habitações se erguiam na margem ocidental das águas, sobre um aclive suave, de modo que nenhuma cheia maior que o comum as alcançasse. O terreno declinava em linha quase reta até o rio, e nas encostas que desciam estavam os campos de cultivo — os Acres, como chamavam naqueles tempos as terras lavradas. E além dos Acres estendia-se o prado, belo e liso, embora aqui e ali se erguesse uma pequena elevação, até alcançar os limites do leito pedregoso do rio invernal.
Ora, o nome dessa Casa era os Wolfings, e um lobo era o emblema de seus estandartes; seus guerreiros traziam gravada no peito a imagem do Lobo, para que se soubesse quem eram, caso tombassem em batalha e fossem despidos.
A Casa — isto é, o Telhado — dos Wolfings da Marca-Média erguia-se no ponto mais alto da encosta mencionada, com as costas voltadas à mata selvagem e a face voltada aos Acres e ao rio. Mas há de saber-se que, naquele tempo, os homens de um mesmo ramo de sangue habitavam sob um único telhado, e ali detinham seu lugar e dignidade; nem havia entre eles muitos graus ou distinções, como veio a ocorrer em épocas posteriores — mas todos os de um mesmo sangue eram irmãos, e de igual honra.
Contudo, havia entre eles servos — ou thralls —, homens capturados em batalha, homens de sangue estranho; embora fosse verdade que, de tempos em tempos, alguns desses homens fossem acolhidos pela Casa e saudados como irmãos de sangue.
E ainda (para dar logo por encerradas essas questões de parentesco e afinidade), os homens de uma mesma Casa não podiam tomar por esposas as mulheres de sua própria Casa: para os homens Wolfings, todas as mulheres Wolfings eram como irmãs. Haviam de desposar, pois, mulheres dos Hartings, dos Elkings, dos Bearings ou de outras Casas da Marca que não fossem tão próximas do sangue do Lobo; e tal era uma lei que a ninguém ocorria quebrar.
Assim vivia esse Povo, e tais eram seus Costumes.
Quanto ao Telhado dos Wolfings, era um grande salão, imponente e digno, segundo os costumes de seu povo e seu tempo: não construído de pedra e argamassa, mas armado com as mais belas árvores da mata selvagem, esquadrejadas com enxó, e preenchido entre as armações com barro entrançado com juncos.
Longa era aquela casa, e numa das extremidades, junto ao beiral, havia a Porta dos Homens, não tão alta que um homem, ao pôr-se no limiar, pudesse deixar seu penacho de elmo passar livre sob o lintel; pois tal era o costume: que um homem alto se curvasse ao adentrar o salão — costume esse que talvez fosse memória dos tempos de assaltos, quando os inimigos costumavam cercar a casa; ao passo que, nos dias em que se conta esta história, saíam para os campos e combatiam ao ar livre, sem defesa, salvo quando a desvantagem era extrema — e então dispunham suas carroças ao redor e se protegiam por meio da Cidadela-de-Carroças.
Nas naves laterais situavam-se os leitos do Povo; e ao longo da nave central, sob a cumeeira do telhado, dispunham-se três lareiras, e sobre cada uma erguia-se um luffer ou "carreador de fumaça", para conduzir o fumo para cima quando os fogos estivessem acesos. Por certo, em uma tarde clara de inverno, era algo insólito e belo ver aquelas três colunas de fumaça ascendendo em ondas até a penumbra do imenso teto, e uma delas, talvez, transpassada de súbito pelos raios do sol.
Mas sobre o estrado pendia, presa por correntes e roldanas firmadas a uma viga transversal do teto, em grande altura, uma lâmpada prodigiosa, forjada em vidro — porém não vidro como o que se fabricava ali naquele tempo, mas de um verde límpido e formoso, semelhante à esmeralda, todo trabalhado com figuras e entrelaços de ouro, e com bestas estranhas, e um guerreiro abatendo um dragão, e o sol nascendo sobre a terra. E não havia conto ou canto que dissesse de onde viera tal lâmpada, mas era tida por coisa santa e antiquíssima por todo o povo da Marca, e confiada à guarda do sangue dos Wolfings, aos quais cabia manter sempre acesa sua chama, de noite e de dia, sem cessar jamais. Para tal encargo, nomeava-se uma donzela da própria linhagem; e essa donzela devia ser virgem, pois nenhuma mulher casada que vivesse sob aquele telhado podia ser uma Wolfing por direito — sendo, por necessidade, oriunda das casas com que os Wolfings esposavam.
Essa lâmpada, cuja chama jamais se extinguia, era chamada Sol-do-Salão; e a mulher a quem competia guardá-la — sendo a mais formosa entre todas — era também chamada, por isso, o Sol-do-Salão.