A Dama da Fonte
Rei Arthur residia em Caerlleon, localizada às margens do rio Usk. Certo dia, estava em sua câmara em companhia de três notáveis indivíduos: Owain, filho de Urien; Kynon, filho de Clydno; e Kai, filho de Kyner. Gwenhwyvar e suas damas de companhia estavam entretidas em seus bordados delicados perto da janela.
Naquela Corte, seria um erro, sugerir que havia um mero porteiro no palácio de Arthur. Nesse refinado ambiente, o conceito de porteiro era elevado para além do comum. Glewlwyd Gavaelvawr marcava presença, exercendo o nobre ofício de receber convidados e forasteiros com distinção, orientá-los acerca dos costumes e etiquetas da Corte e conduzir aqueles que procuravam a sala ou câmara do rei, bem como os que buscavam alojamento.
No centro da câmara, o Rei Arthur repousava em um assento de juncos verdes, coberto por um manto de cetim cor de fogo, apoiando o cotovelo em uma almofada de cetim vermelho.
Então, Arthur falou:
— Se não se importam com minha presença — sugeriu ele — eu poderia descansar um pouco enquanto aguardamos minha refeição. Enquanto isso, vocês poderiam se entreter compartilhando histórias. Peçam a Kai um odre de hidromel e algo para comer.
Com isso, o rei adormeceu. Kynon, filho de Clydno, pediu a Kai o que Arthur havia prometido.
—Também terei a bela história que ele me prometeu? — retrucou Kai.
— Não — respondeu Kynon — seria melhor se cumprisses primeiro a ordem de Arthur. Depois, contaremos a melhor história que conhecemos.
Assim, Kai dirigiu-se à cozinha e à adega, retornando com um odre de hidromel, um cálice de ouro e um punhado de espetos, nos quais havia pedaços de carne grelhada. Após comerem a carne e começarem a beber o hidromel, Kai disse:
— Agora é a hora de contarem a minha história prometida.
— Kynon — disse Owain — pague a Kai a história que lhe é devida.
— Na verdade — respondeu Kynon — tu és mais velho, um melhor contador de histórias, e já viste coisas mais maravilhosas que eu. Portanto, és tu quem deve a história a Kai.
— Inicia tu mesmo — disse Owain — com a melhor que conheces.
— Assim o farei, então — respondeu Kynon, e prosseguiu.
— Fui o único filho de minha mãe e meu pai, e eu era extremamente ambicioso, e extremamente audacioso. E eu não imaginava que houvesse no mundo uma injustiça tão poderosa que eu não pudesse corrigir. E quando eu havia corrigido todas as injustiças que existiam em meu próprio país, preparei-me e parti para viajar por desertos e regiões distantes. Assim, cheguei ao vale mais belo do mundo, onde havia árvores com crescimento uniforme; cortado por um rio, ao lado do qual havia um caminho. Segui o caminho até o meio-dia e continuei a minha jornada pelo vale até a noite; e no final de uma planície, encontrei um grande e resplandecente castelo, junto ao qual fluía uma torrente. Ao me aproximar do castelo, observei dois jovens de cabelos encaracolados e loiros, cada um com uma tiara de ouro na cabeça e vestido com trajes de cetim amarelo. Tinham fivelas de ouro nos tornozelos. Em cada mão, portavam um arco de marfim, amarrado com tendões de veado, e suas flechas, com hastes de osso de baleia e penas de pavão, terminavam em ponteiras de ouro. Portavam adagas de lâmina dourada, com cabos de osso de baleia. Estavam entretidos em arremessar suas adagas.
— Adiante, observei um homem na plenitude da vida, com a barba recém-aparada, trajando uma túnica e um manto de cetim amarelo. Em volta do topo do seu manto, uma faixa de renda dourada acrescentava nobreza à sua vestimenta. Calçava sapatos de couro variegado, adornados por dois broches de ouro. Ao avistá-lo, aproximei-me e o saudei. Sua cortesia era tal que, imediatamente após minha saudação, retribuiu-a. Ele me acompanhou em direção ao Castelo.
— Curiosamente, não havia habitantes no Castelo, exceto aqueles que estavam em um salão. Lá, vi vinte e quatro donzelas bordando cetim junto à janela. Posso assegurar, Kai, que a menos formosa delas superava em beleza a mais linda donzela que já viste na Ilha da Bretanha. E a menos encantadora delas era mais fascinante que Gwenhwyvar, esposa de Arthur, mesmo quando ela aparece como a mais bela das damas durante a Missa, no Natal, ou na festa da Páscoa.
— As donzelas se levantaram com minha chegada, e seis delas tomaram conta do meu cavalo e retiraram minha armadura. Outras seis pegaram minhas armas e as lavaram em uma bacia até brilharem intensamente. Mais seis arrumaram as mesas e prepararam a comida, enquanto as últimas seis trocaram minhas roupas sujas por novas: uma camisa e um gibão de linho fino, uma túnica, um sobretudo e um manto de cetim amarelo com uma larga faixa de ouro. Elas dispuseram almofadas sob mim e ao meu redor, cobertas com lençóis de linho vermelho, e eu me acomodei ali.
— As seis donzelas que cuidaram do meu cavalo cuidaram dele tão bem quanto os melhores escudeiros da Ilha da Bretanha o fariam. Logo após, trouxeram bacias de prata com água e toalhas de linho, algumas verdes e outras brancas, para que eu lavasse as mãos. Pouco depois, o homem que eu tinha visto se sentou à mesa. Eu me sentei ao seu lado, e abaixo de mim acomodaram-se todas as donzelas, exceto aquelas que nos serviam. A mesa era de prata, e os panos que a cobriam eram de linho. Nenhum utensílio servido na mesa era de material inferior ao ouro, à prata ou ao chifre de búfalo. Então, nossa comida foi trazida e, devo dizer, Kai, eu vi ali todos os tipos de alimentos e bebidas que já encontrei em qualquer outro lugar, mas foram servidos de maneira superior à que eu já tinha presenciado antes.
— Durante a primeira metade da refeição, nem o homem nem qualquer das donzelas pronunciaram uma única palavra para mim. Contudo, quando o homem percebeu que seria mais agradável para mim conversar do que prosseguir comendo, ele me questionou sobre minha identidade. Expressei meu alívio em encontrar alguém com quem conversar e mencionei que, nessa corte, não era considerado um grande crime as pessoas conversarem entre si. “Senhor” — respondeu o homem — “teríamos iniciado uma conversa mais cedo, mas temíamos interromper a tua refeição. Agora, entretanto, podemos conversar.”
— Dessa forma, apresentei-me ao homem e expliquei o propósito da minha jornada, mencionando que estava em busca de alguém que me superasse ou se eu poderia dominar a todos. O homem me olhou, sorriu e disse: “Se eu não temesse te afligir muito, poderia mostrar-te o que procuras.”. Com isso, senti-me ansioso e um pouco abatido. Percebendo isso, o homem falou: “Se preferes que eu aponte como arrumar problemas e te deixar em desvantagem, em vez de mostrar informações que te beneficiem, com prazer, o farei. Durma aqui esta noite e, ao amanhecer, siga a estrada que sobe pelo vale, até chegar à floresta pela qual chegaste aqui. Pouco além da entrada da floresta, encontrarás uma estrada que bifurca à direita. Segue por ela até chegar a uma grande clareira resguardada, com um montículo ao centro. No topo deste monte, verás um homem de grande estatura, de pele negra. Ele não é menor que dois homens deste mundo. Possui apenas um pé e um olho no meio da testa. Carrega consigo uma clava de ferro, cujo peso certamente seria muito penoso para dois homens. Ele não é um homem de aparência agradável; ao contrário, é extremamente desfigurado. Ele é o guardião dessa floresta. Ao redor dele, perceberás mil animais selvagens pastando. Pergunta-lhe o caminho para sair da clareira, e ele responderá de maneira bem curta, indicando a estrada que te conduzirá ao que procuras.”
— Essa noite pareceu-me interminável. Ao amanhecer, preparei-me, montei meu cavalo e segui pelo vale em direção à floresta, conforme as orientações do homem. Prossegui até alcançar a clareira. Para minha surpresa, a quantidade de animais selvagens que lá encontrei era três vezes maior do que o homem havia descrito. E lá estava o homem negro, assentado no topo do montículo. Sua estatura era colossal, muito além do que me fora contado. E quanto à clava de ferro que o homem dissera pesar o suficiente para dois homens, estou convicto, Kai, que quatro guerreiros teriam dificuldade em levantá-lo. Era esse o objeto que o homem negro segurava. Ele só respondia estritamente às minhas indagações, então perguntei que domínio ele exercia sobre aqueles animais. “Vou mostrar-te, pequeno homem” — disse ele.
— Com isso, ergueu a clava e acertou um veado, provocando um bramido veemente. No eco do seu clamor, os animais reuniram-se, tão numerosos quanto as estrelas no céu, tornando difícil para mim encontrar um espaço na clareira. Havia serpentes, dragões e diversas outras espécies de animais. Ele os observou e ordenou que fossem se alimentar. Eles baixaram as cabeças e prestaram-lhe homenagem como vassalos ao seu senhor. Então, o homem negro indagou: “Agora percebes, pequeno homem, o poder que exerço sobre estes animais?”.
— Então, indaguei-lhe sobre o caminho, e ele se mostrou bastante ríspido; no entanto, mesmo assim, me questionou acerca do meu destino. Após explicar-lhe quem eu era e o que buscava, ele me orientou. “Siga aquele caminho que leva à clareira mais alta, subindo a colina arborizada até chegar ao seu cume. Lá, encontrarás uma área aberta, semelhante a um grande vale, e no meio dela, uma árvore cujos galhos são mais verdes do que os dos pinheiros mais vivos. Sob esta árvore jorra uma fonte, e ao lado da fonte, repousa uma laje de mármore. Sobre a laje, encontrarás uma tigela de prata, presa por uma corrente do mesmo metal, para que não seja levada embora. Pegue a tigela e despeje seu conteúdo sobre a laje. Ouça o estrondo potente do trovão, tão poderoso que fará você pensar que céu e terra tremem com sua fúria. Com o trovão, virá uma chuva de granizo tão intensa que duvido que consigas resistir e sobreviver. Após a chuva, o tempo clareará, mas todas as folhas da árvore terão sido levadas pelo temporal. Então, um bando de pássaros pousará na árvore e cantará uma melodia mais doce do que qualquer outra que já ouviste. Enquanto estiveres encantado com o canto dos pássaros, ouvirás um murmúrio lamentoso vindo em tua direção pelo vale. Verás um cavaleiro montando um cavalo preto como carvão, vestido de veludo negro, com um estandarte de linho negro em sua lança; ele te enfrentará em alta velocidade. Se fugires, ele te alcançará, se permaneceres, ele te derrubará do cavalo. Essa aventura é desafiadora e te colocará à prova, mas se a superares, não precisarás buscar mais desafios pelo resto de tua vida.”
— Então continuei minha jornada, até alcançar o cume da colina, e lá encontrei tudo como o homem me descrevera. Aproximei-me da árvore, encontrando a fonte ao lado da laje de mármore e a tigela de prata presa por uma corrente. Peguei a tigela e despejei água sobre a laje; então, veio o trovão, muito mais violento do que o homem negro havia descrito. Após o trovão, veio a chuva, e devo dizer-te, Kai, que ninguém, nem homem nem animal, poderia resistir a essa tempestade e sobreviver. Não havia pele nem carne que pudesse parar essas pedras de granizo, que perfuravam até os ossos. Virei meu cavalo de lado para a chuva e coloquei o topo do meu escudo sobre minha cabeça e a dele. E assim, resisti ao temporal. Quando olhei para a árvore, vi que não restava uma única folha. Logo, o céu clareou e os pássaros pousaram na árvore, cantando uma melodia maravilhosa, que nunca ouvi igual. Enquanto estava maravilhado ouvindo os pássaros, ouvi um murmúrio vindo do vale, que se aproximava dizendo: “Ó, cavaleiro, o que te trouxe até aqui? Que mal te causei para que me infligisses tal dano e à minha propriedade hoje? Não sabes que a chuva de hoje exterminou todo homem e animal expostos a ela em minhas terras?”
— E então, surgiu um cavaleiro montando um cavalo preto como carvão, vestido de veludo negro e com um tabardo de linho negro. Atacamo-nos e, dada a ferocidade do embate, rapidamente fui derrubado. O cavaleiro atou minha rédea à sua lança e partiu com os dois cavalos, deixando-me para trás. Ele nem mesmo se deu ao trabalho de me capturar ou me despojar de minhas armas.
— Assim, retornei pelo mesmo caminho. Ao chegar à clareira onde o homem negro estava, confesso-te, Kai, que foi um verdadeiro desafio não me derreter de vergonha diante da zombaria que sofri. No entanto, aquela noite retornei ao mesmo castelo onde passei a noite anterior. Para minha surpresa, fui recebido com mais cordialidade e atenção, e pude conversar livremente com os habitantes do castelo, sem que alguém sequer mencionasse minha expedição à fonte. Também não mencionei isso a ninguém e ali passei a noite.
— No dia seguinte, ao levantar-me, encontrei um poldro marrom escuro, de narinas tão vermelhas quanto o escarlate, preparado e selado. Após me equipar com minha armadura e receber a minha bênção, retornei à minha corte. Ainda possuo esse cavalo e, como podes ver naquele estábulo ali, ele continua comigo. Devo confessar que não o trocaria pelo melhor cavalo na Ilha da Bretanha.
— Agora, realmente, Kai, nenhum homem jamais confessou uma aventura tão desonrosa para si mesmo, e certamente me parece estranho que nunca ouvi falar de ninguém além de mim que tenha experimentado essa aventura e que ela exista dentro dos domínios do Rei Arthur, sem que mais ninguém a tenha descoberto.
— Agora — disse Owain — não seria interessante tentar descobrir esse lugar?
— Pela mão do meu amigo — respondeu Kai — frequentemente afirmas essas coisas com palavras, mas não o concretizas com ações.
— De fato — interveio Gwenhwyvar — seria melhor que fosses enforcado, Kai, do que usar palavras tão rudes com um homem como Owain.
— Pela mão do meu amigo, minha Senhora — retrucou Kai — meu apreço por Owain não é menor que o teu.
Nesse momento, Arthur despertou e perguntou se tinha cochilado.
— Sim, senhor — respondeu Owain — adormeceste um pouco.
— É hora de irmos comer?
— Sim, Senhor — confirmou Owain.
Então, tocaram o chifre para lavar as mãos, e o Rei e todos os seus companheiros se sentaram para comer. Quando a refeição terminou, Owain retirou-se para seu alojamento e preparou seu cavalo e suas armas.
Na manhã seguinte, ao amanhecer, ele vestiu sua armadura, montou seu cavalo e viajou por terras distantes e montanhas desertas. Finalmente, chegou ao vale que Kynon havia descrito; e não tinha dúvidas de que era o que procurava. Seguindo o vale ao lado do rio, avançou até chegar à planície e avistar o Castelo. Ao se aproximar do Castelo, viu os jovens atirando adagas, no mesmo lugar onde Kynon os havia visto, e o homem amarelo, proprietário do Castelo, estava nas proximidades. Assim que Owain cumprimentou o homem amarelo, recebeu uma saudação calorosa em troca.
Ele prosseguiu em direção ao Castelo, onde viu o salão e, ao entrar, observou as donzelas bordando em cetim, sentadas em cadeiras de ouro. Sua beleza e graça pareciam ainda maiores do que Kynon havia descrito para Owain. As jovens se levantaram para atendê-lo, como haviam feito com Kynon, e a refeição que serviram agradou mais a Owain do que havia satisfeito a Kynon. No meio da refeição, o homem amarelo perguntou a Owain o propósito de sua jornada. Owain revelou a ele, dizendo:
— Estou em busca do Cavaleiro que guarda a fonte.
Ao ouvir isso, o homem amarelo sorriu e disse que estava relutante em mostrar essa aventura a Owain, assim como havia sido para Kynon. No entanto, ele descreveu tudo para Owain, e então se retiraram para descansar.
Na manhã seguinte, Owain encontrou seu cavalo pronto para partir, preparado pelas donzelas. Seguiu seu caminho e chegou à clareira onde estava o homem negro. A estatura desse homem pareceu ainda mais surpreendente a Owain do que a Kynon. Owain perguntou-lhe o caminho, que foi prontamente mostrado. Assim, Owain prosseguiu, tal como Kynon fizera, até chegar à árvore verde; e viu a fonte e a laje ao lado dela, com uma tigela em cima. Owain pegou a tigela e derramou sua água sobre a laje. Logo após, o trovão soou e veio uma chuva ainda mais intensa do que a que Kynon havia descrito. Depois da chuva, o céu clareou. Olhando para a árvore, percebeu que não restava uma única folha nela. Imediatamente, os pássaros vieram e pousaram sobre a árvore, entoando suas canções. No ápice do canto, que encantava Owain, avistou um cavaleiro aproximando-se pelo vale.
Ele se preparou para o encontro e enfrentou o cavaleiro com violência. Depois de quebrarem suas lanças, desembainharam as espadas e travaram um combate intenso. Owain atingiu o cavaleiro com um golpe na cabeça, que atravessou seu elmo, a pele, a carne e o osso, chegando ao cérebro. Sentindo-se mortalmente ferido, o cavaleiro negro fugiu, com Owain em seu encalço, porém, não o suficientemente perto para atingi-lo com sua espada.
Nesse instante, Owain avistou um Castelo vasto e resplandecente. Eles chegaram à porta do Castelo. O cavaleiro negro foi autorizado a entrar e o portão caiu sobre Owain; atingindo seu cavalo por trás da sela, cortando-o ao meio, arrancando as esporas que estavam nos calcanhares de Owain. E o portão desceu até o chão. E as esporas e parte do cavalo ficaram do lado de fora, e Owain com a outra parte do cavalo ficou preso entre os dois portões, e o portão interno foi fechado, de modo que Owain não pôde sair dali. Assim, Owain estava em uma situação angustiante.
Apesar disso, conseguiu avistar, através de uma fenda, uma rua à sua frente, com casas de ambos os lados. Nesse momento, ele viu uma donzela de cabelos cacheados amarelos e uma tiara de ouro na cabeça; vestida com um traje de cetim amarelo e sapatos de couro multicolorido. Ela se aproximou do portão e pediu que ele fosse aberto.
— Deus sabe, Senhora, não consigo abrir a porta daqui, assim como você não consegue me libertar.
— Realmente, é uma grande tristeza que tu não possas ser libertado. Todas as mulheres deveriam ajudá-lo, pois nunca vi alguém tão leal no serviço às damas. Como amigo, és sincero, e como amante, dedicado. Portanto, farei tudo o que estiver ao meu alcance para te libertar. Leva este anel e coloca-o no teu dedo, com a pedra voltada para a palma da tua mão; e fecha a mão sobre a pedra. Enquanto esconderes a pedra, ela te ocultará. Virão te buscar para te condenar à morte, e quando te procurarem e não te encontrarem, ficarão extremamente aflitos. Eu te esperarei ali adiante, na plataforma de montaria; verás a mim, mesmo que eu não possa te ver. Portanto, venha e coloque tua mão em meu ombro para que eu saiba que estás perto. Siga-me pelo caminho que eu indicar.
Com isso, a donzela se afastou e Owain seguiu suas instruções. As pessoas do castelo vieram procurá-lo para condená-lo à morte, ficando perturbadas ao encontrarem apenas metade de seu cavalo.
Owain, invisível, colocou a mão no ombro da donzela, que o conduziu até a porta de uma câmara grande e bela. Entraram e fecharam a porta. Olhando ao redor, Owain constatou que não havia sequer um único prego que não estivesse pintado de cores deslumbrantes; e cada painel ostentava imagens douradas.
A donzela acendeu uma lareira, trouxe água numa taça de prata e colocou uma toalha de linho branco sobre o ombro de Owain, oferecendo-lhe água para se lavar. Em seguida, arrumou para ele uma mesa de prata decorada com ouro; sobre a qual havia uma toalha de linho amarelo; e ela lhe trouxe comida. E, de fato, Owain nunca havia presenciado uma variedade tão vasta de carnes, todas preparadas de forma impecável, e mais do que isso, ele nunca tinha visto uma exibição tão requintada de comidas e bebidas. Cada vasilha que o servia era de ouro ou prata. Assim, Owain comeu e bebeu até o final da tarde, quando um clamor estrondoso ecoou pelo castelo; e Owain questionou à donzela sobre o que se tratava.
— Eles estão administrando a extrema unção — ela informou — ao Nobre que é dono do Castelo.
Após a explicação, Owain foi descansar.
A cama que a donzela preparou para ele era digna do próprio Arthur; era escarlate de cetim, pele, sendal e linho fino. No meio da noite, eles ouviram um lamento doloroso.
— Que clamor é esse agora? — Indagou Owain.
— O Nobre que é dono do Castelo acaba de falecer. — Respondeu a donzela.
E logo após o amanhecer, ouviram um clamor e um pranto extremamente altos. E Owain questionou à donzela a causa daquilo.
— Estão levando o corpo do nobre dono do castelo para a igreja. — Ela esclareceu.
Owain levantou-se, vestiu-se e abriu uma janela do quarto, olhando em direção ao castelo; e ele não conseguia visualizar nem os limites nem a extensão das multidões que lotavam as ruas. Eles estavam todos armados; e um grande número de mulheres os acompanhava, tanto a cavalo quanto a pé; além dos eclesiásticos da cidade que entoavam cânticos. Para Owain, parecia que o céu reverberava com a intensidade de seus gritos, o barulho das trombetas e o canto dos eclesiásticos. No meio da multidão, ele avistou a caixão, sobre a qual havia um véu de linho branco; e velas de cera ardiam ao seu redor, todas elas carregadas por nobres de alto escalão.
Owain nunca havia presenciado uma reunião tão esplêndida adornada com cetim, seda e linho. Seguindo o cortejo, ele viu uma dama de cabelos loiros que caíam sobre os ombros e estavam manchados de sangue; em torno dela, um vestido de cetim amarelo, que estava rasgado. Nos pés, ela calçava sapatos de couro colorido. Era de se admirar que as pontas dos dedos dela não estivessem machucadas, tal a forma como ela batia suas mãos uma contra a outra. Na verdade, se ela estivesse com sua aparência usual, ela teria sido a dama mais linda que Owain já tinha visto. E seu choro era mais alto que o grito dos homens ou o clamor das trombetas. Assim que viu a dama, ele se apaixonou por ela, de modo que ela o preencheu completamente.
Em seguida, ele perguntou à donzela quem era aquela dama.
— Deus sabe — respondeu a donzela — ela é considerada a mais bela, a mais casta, a mais generosa, a mais sábia e a mais nobre das mulheres. Ela é minha senhora; e é conhecida como a Condessa da Fonte, a esposa daquele que tu derrotaste ontem.
— Com toda a sinceridade — disse Owain — ela é a mulher que mais amo neste mundo.
— Sem sombra de dúvida — respondeu a donzela — ela também te amará com todo o seu coração.
Com isso, a donzela se levantou, acendeu a lareira, colocou água para esquentar num caldeirão; trouxe uma toalha de linho branco e a colocou ao redor do pescoço de Owain; pegou uma taça de marfim e uma bacia de prata e as encheu com água quente, com as quais ela lavou a cabeça de Owain. Em seguida, ela abriu uma caixa de madeira e tirou uma navalha, cujo cabo era de marfim e estava ornada com dois rebites de ouro. Com ela, raspou a barba de Owain e secou sua cabeça e seu pescoço com a toalha. Depois disso, ela serviu a refeição a Owain. E, certamente, Owain nunca teve um banquete tão bom, nem foi tão bem servido.
Após terminar sua refeição, a donzela arrumou a cama de Owain.
— Venha descansar — disse ela — enquanto eu saio para conquistar o coração dela para ti.
Owain obedeceu e adormeceu, enquanto a donzela deixava o aposento e seguia em direção ao castelo. Ao chegar lá, encontrou um ambiente de luto e tristeza. A Condessa estava em sua câmara, inconsolável. A donzela, Luned, tentou cumprimentá-la, mas não recebeu resposta. Sem se abalar, Luned insistiu:
— O que te aflige, que não respondes a ninguém hoje?
— Luned — disse a Condessa — vejo uma mudança em ti. Não vieste me visitar em meu pesar. Foi uma falta de consideração da tua parte, e eu que sempre te tratei tão bem. Deverias ter vindo me ver em minha aflição. Foi um erro da tua parte.
— Na verdade — disse Luned — eu acreditava que teu discernimento fosse mais forte do que demonstras agora. É justo lamentar por aquele que partiu, ou por qualquer coisa, que não pode mais ter?
— Eu juro pelos céus — disse a Condessa — que não há um homem neste mundo igual a ele.
— Não é bem assim — refutou Luned — pois até um homem de menor porte seria tão bom quanto, ou até mesmo melhor do que ele.
— Juro por Deus — insistiu a Condessa — que se não fosse repugnante para mim causar a morte de alguém que criei, eu te faria ser executada por fazeres tal comparação. Porém, dado o acontecido, devo te exilar.
— Fico aliviada — disse Luned — que tu não tens outro motivo para fazê-lo, além do fato de que eu estava apenas tentando ser útil a ti, quando tu não sabes o que é do teu interesse. E a partir de agora, que o azar caia sobre qualquer uma de nós que tome a iniciativa de se reconciliar com a outra; seja eu procurando um convite teu, seja tu, por tua própria vontade, me convidando.
Com isso, Luned partiu. No entanto, a Condessa a seguiu até a porta da câmara, começando a tossir em voz alta. Quando Luned olhou para trás, a Condessa acenou para ela. Luned retornou à presença da Condessa, que disse:
— De fato, tens um espírito ousado, mas se sabes o que é melhor para mim, diga-me.
— Assim o farei. — Assegurou Luned — Como bem sabes, sem a proteção das armas, não é possível preservar tuas possessões. Então, não demores em buscar alguém que possa defendê-las.
— E como posso fazer isso? — Disse a Condessa.
— Eu te mostrarei. — Respondeu Luned. — A menos que possas proteger a fonte, não podes manter teus domínios. E ninguém pode proteger a fonte, exceto um cavaleiro da corte de Arthur. Irei à corte de Arthur, e se eu não retornar com um guerreiro capaz de guardar a fonte tão bem quanto, ou melhor do que aquele que antes a defendia, que a má sorte recaia sobre mim.
— Será uma tarefa difícil — disse a Condessa — mas vá e faça o que prometeste.
Assim, Luned partiu, sob o pretexto de ir à corte de Arthur, mas retornou à câmara onde havia deixado Owain. Ela permaneceu com ele pelo tempo que teria levado para viajar até a corte do Rei Arthur. Ao final desse tempo, ela foi visitar a Condessa. A Condessa ficou muito feliz ao vê-la e perguntou que notícias ela trazia da corte.
— As melhores notícias — disse Luned — pois consegui cumprir minha missão. Quando gostarias que eu te apresentasse ao cavaleiro que veio comigo até aqui?
— Peça a ele que venha me visitar amanhã, ao meio-dia — respondeu a Condessa — e até lá, farei com que a cidade seja convocada.
No dia seguinte, ao meio-dia, Owain se vestiu com uma túnica, uma sobre túnica e um manto de cetim amarelo, bordado com uma ampla faixa de renda dourada. Em seus pés, calçava botas de couro bordado, que eram presas por fechos de ouro na forma de leões. Juntos, ele e Luned seguiram para a câmara da Condessa. A Condessa os recebeu com grande alegria e olhou fixamente para Owain, observando:
— Luned, este cavaleiro não tem o aspecto de um viajante.
— Que mal há nisso, senhora? — Disse Luned.
— Estou certa — disse a Condessa — que nenhum outro homem além deste tirou a vida do meu senhor.
— Isso é ainda melhor para ti, senhora — disse Luned — pois se ele não fosse mais forte que teu senhor, não poderia ter lhe tirado a vida. Não há remédio para o que já passou.
— Volte para tua casa — ordenou a Condessa — enquanto eu reflito sobre tudo isso.
No dia seguinte, a Condessa convocou todos os seus súditos e explicou que seu condado estava desprotegido, e que só poderia ser defendido por um cavaleiro habilidoso.
— Portanto — disse ela — ofereço-lhes duas opções: ou um de vocês me toma como esposa, ou vocês consentem que eu tome um marido de fora para defender nossas terras.
Eles concluíram que era melhor permitir que ela se casasse com alguém de fora, e assim, ela convocou bispos e arcebispos para celebrar seu casamento com Owain. Os homens do condado prestaram homenagem a Owain.
Owain protegia a Fonte com habilidade, usando sua lança e espada. Sempre que um cavaleiro chegava lá, ele o derrubava e exigia um resgate ou pagamento equivalente ao seu valor como prisioneiro. O lucro era dividido entre seus barões e cavaleiros, e ninguém no mundo inteiro era mais amado por seus súditos do que Owain. E assim foi por três anos.
Num certo dia, Gwalchmai percebeu o Rei Arthur tristonho e abatido. Muito aflito com tal situação, questionou o rei:
— Oh, meu senhor! O que te aflige?
— Gwalchmai, estou consternado pela ausência de Owain, desaparecido há três anos. Se chegar ao quarto ano sem vê-lo, certamente perecerei. Agora estou certo de que o perdi por causa da história que Kynon, filho de Clydno. — Respondeu Arthur.
— Não precisamos mobilizar todos os teus domínios para esta causa, pois tu e os homens da tua casa poderão vingar Owain, caso esteja morto; libertá-lo, se estiver preso; e, se vivo, trazê-lo de volta contigo. — Gwalchmai ponderou.
E assim, foi decidido conforme Gwalchmai sugerira.
Arthur e os homens de sua casa prepararam-se para buscar Owain. Eram três mil, além dos acompanhantes. Kynon, filho de Clydno, atuou como guia. Arthur alcançou o Castelo que Kynon visitara anteriormente. Lá, os jovens atiravam no mesmo local, ao lado do homem amarelo. Este último, ao ver Arthur, cumprimentou-o e convidou-o para o Castelo. Arthur aceitou e todos entraram juntos no Castelo. Apesar da grandeza de sua comitiva, mal perceberam sua presença no castelo devido à sua imponência. E as donzelas levantaram-se para servi-los. Serviram a todos diligentemente, até mesmo aos pajens encarregados dos cavalos, que foram tão bem atendidos quanto Arthur seria em seu próprio palácio.
Na manhã seguinte, Arthur partiu dali com Kynon como guia. Chegaram ao local onde se encontrava o homem negro, cuja estatura era ainda mais surpreendente para Arthur do que lhe haviam relatado. Atravessaram o vale até chegarem a uma floresta verdejante, onde viram a fonte, a tigela e a laje. Kai abordou Arthur e falou:
— Meu senhor, estou ciente do que está por acontecer, e rogo que me permitas derramar a água sobre a laje e encarar o desafio que surgir.
E Arthur deu-lhe permissão. Então, Kai despejou a tigela de água sobre a laje, o que gerou um trovão imediato seguido de chuva. A tempestade de trovões foi tão forte que matou muitos dos acompanhantes da comitiva de Arthur. Após a tempestade, o céu clareou. Ao olhar para a árvore, perceberam que estava completamente sem folhas. Então, os pássaros desceram à árvore e seu canto era mais doce que qualquer melodia já ouvida antes. Logo avistaram um cavaleiro vestido de cetim preto, montado em um cavalo da mesma cor, aproximando-se rapidamente. Kai o confrontou, mas foi rapidamente derrubado. O cavaleiro se retirou e Arthur e sua comitiva montaram acampamento para passar a noite.
No dia seguinte, viram o sinal de combate na lança do cavaleiro. Kai abordou Arthur novamente, dizendo:
— Meu senhor, embora tenha sido derrubado ontem, se achares conveniente, gostaria de enfrentar o cavaleiro novamente hoje.
— Podes fazê-lo. — Disse Arthur.
E Kai avançou em direção ao cavaleiro. Com um golpe certeiro, derrubou Kai e atingiu-o na testa com a cabeça de sua lança, quebrando o capacete e a proteção, perfurando a pele e a carne, até atingir o osso. Kai, com bravura, retornou aos seus companheiros após o combate. Em seguida, toda a comitiva de Arthur avançou, um após o outro, para enfrentar o cavaleiro, mas um por um foram derrubados, exceto Arthur e Gwalchmai, que permaneceram de pé.
Arthur se preparava para enfrentar o cavaleiro quando Gwalchmai interveio.
— Oh, meu senhor, permite que eu lute com ele primeiro.
Arthur concordou e Gwalchmai confrontou o cavaleiro. Ele estava vestindo um robe de cetim de honra, presente da filha do Conde de Rhangyw, e, por isso, ninguém o reconheceu. Eles lutaram durante todo o dia até o entardecer, sem que nenhum dos dois conseguisse derrubar o outro.
No dia seguinte, retomaram a encarniçada disputa, empunhando lanças poderosas, porém nenhum dos contendores alcançou a supremacia.
E no terceiro dia, travaram um combate com lanças excepcionalmente fortes. Inflamados pela raiva, lutaram ferozmente até o meio-dia. Propinaram-se um embate tão violento que as cilhas dos seus cavalos se partiram, precipitando-os por cima dos arreios até o chão. Levantaram-se com agilidade, empunharam suas espadas e retomaram o duelo; a multidão, testemunha do embate, estava convicta de que nunca haviam visto dois guerreiros tão bravos ou poderosos.
Mesmo sob a escuridão da meia-noite, haveria luz pelo fogo que faiscava de suas armas. O Cavaleiro desferiu um golpe em Gwalchmai que arrancou seu capacete, permitindo que o reconhecesse. Então, Owain exclamou:
— Meu senhor Gwalchmai, não te reconheci como meu primo, devido ao robe nobre que te envolvia; toma minha espada e minhas armas.
— Tu, Owain, és o vitorioso; toma tu minha espada. — Gwalchmai retrucou.
Nesse momento, Arthur percebeu que estavam conversando e avançou em sua direção.
— Meu senhor Arthur — disse Gwalchmai — aqui está Owain, que me venceu e não quer tomar minhas armas.
— Meu senhor — disse Owain — é ele que me venceu e não quer aceitar minha espada.
— Entreguem-me suas espadas. — Ordenou Arthur — E assim nenhum de vocês terá superado o outro.
Então, Owain abraçou Arthur e todos se reuniram para cumprimentar e abraçar Owain; a euforia era tamanha que quase resultou em fatalidades.
Naquela noite, eles retornaram ao acampamento, e no dia seguinte Arthur começou a preparar-se para partir.
— Meu senhor — disse Owain — não seria apropriado de tua parte ir; estive ausente por três anos, e durante todo esse tempo, até hoje, preparei um banquete para ti, sabendo que virias me procurar. Permanece comigo, portanto, até que tu e teus companheiros recuperem-se do cansaço da jornada e sejam adequadamente cuidados.
Todos se dirigiram ao Castelo da Condessa da Fonte, e o banquete que havia sido preparado por três anos foi consumido em três meses. Nunca antes haviam participado de um banquete tão delicioso ou agradável. E Arthur começou a preparar-se para partir.
Nesse ínterim, despachou mensageiros à Condessa, solicitando-lhe que permitisse que Owain o acompanhasse por três meses, para que pudesse apresentá-lo aos nobres e às belas damas da Ilha da Grã-Bretanha. A Condessa deu seu consentimento, embora isso lhe causasse grande sofrimento. Assim, Owain acompanhou Arthur até a Ilha da Grã-Bretanha. E, uma vez que se encontrava novamente entre seus parentes e amigos, decidiu permanecer três anos, em vez de três meses, com eles.
Certo dia, enquanto Owain estava sentado à mesa na cidade de Caerlleon, uma donzela adentrou o recinto montada em um cavalo baio de crina encaracolada, coberto de espuma. A brida e tudo o que se podia ver da sela reluziam em ouro. A donzela vestia-se com um traje de cetim amarelo. Aproximou-se de Owain, arrebatou o anel de sua mão e declarou:
— Assim será tratado o enganador, o traidor, o infiel, o envergonhado e o imberbe.
Com isso, ela virou a cabeça de seu cavalo e partiu.
Então, a lembrança de sua aventura o invadiu e ele se entristeceu. Após terminar a refeição, retirou-se para sua morada e preparou-se para a noite. No dia seguinte, não compareceu à Corte. Em vez disso, perambulou por regiões remotas e montanhas selvagens. Permaneceu nesses ermos até que todas as suas vestes se desgastassem, seu corpo enfraquecesse e seu cabelo crescesse longamente. Ele conviveu com as feras selvagens e alimentou-se com elas até que se tornaram familiares para ele. Entretanto, ao final, tornou-se tão fraco que já não conseguia suportar sua companhia. Então, desceu das montanhas para um vale e chegou a um parque, o mais belo que já vira, pertencente a uma Condessa viúva.
Certo dia, a Condessa e suas damas foram passear junto a um lago situado no meio do parque. Avistaram a figura de um homem caído e ficaram assustadas. Mesmo assim, aproximaram-se, tocaram-no e observaram-no. Perceberam que ainda havia vida nele, embora estivesse esgotado pelo calor do sol. A Condessa então retornou ao Castelo, pegou um frasco repleto de precioso bálsamo e entregou-o a uma de suas damas.
— Vá com isso, e leve aquele cavalo e roupas ali, e coloca-os perto do homem que vimos agora há pouco. Unge-o com este bálsamo perto do coração; se ainda houver vida nele, ele se erguerá graças à eficácia deste bálsamo. Observa então o que ele fará.
A dama partiu, derramou todo o bálsamo sobre Owain, deixou junto dele o cavalo e as vestes, afastou-se um pouco e escondeu-se para observá-lo. Passado pouco tempo, viu-o começar a mexer os braços; ele se levantou e ao contemplar seu corpo, sentiu-se envergonhado pelo aspecto desleixado. Em seguida, avistou o cavalo e as vestimentas que estavam perto dele. Dirigiu-se até elas, pegou as roupas do cavalo, vestiu-se e, com algum esforço, montou no cavalo. Nesse momento, a donzela revelou-se a ele e cumprimentou-o. Ele sentiu-se aliviado ao vê-la e indagou sobre que terras e território eram aqueles.
— Na verdade — disse a donzela — esse Castelo pertence a uma Condessa viúva; na morte de seu marido, ele deixou-lhe dois condados, mas hoje ela possui apenas esta propriedade, que não foi tomada pelo seu vizinho, um jovem Conde, pois ela recusou-se a se tornar sua esposa.
— Que pena — lamentou Owain.
E ele e a donzela dirigiram-se para o Castelo; ele desmontou, e a donzela o conduziu a um aposento aconchegante, acendeu a lareira e o deixou.
A donzela aproximou-se da Condessa e lhe entregou a garrafa.
— Ah! Donzela. — Exclamou a Condessa. — Onde está todo o bálsamo?
— Não era para usar tudo? — Questionou ela.
— Ah, donzela. — Respondeu a Condessa. — Não posso facilmente perdoar tal descuido; é lamentável o desperdício de setenta libras de precioso bálsamo com um desconhecido. No entanto, donzela, assista-o até que esteja totalmente recuperado.
Assim fez a donzela, providenciando-lhe alimento, bebida, calor, abrigo e medicamentos até que se recuperasse totalmente. Em três meses, Owain foi restaurado ao seu estado original, parecendo ainda mais atraente do que nunca.
Um belo dia, Owain ouviu um grande alvoroço e o som de armas no castelo. Ele perguntou à donzela qual era a razão.
— O Conde do qual havia lhe mencionado, veio até o castelo com um grande exército para subjugar a Condessa.
Então, Owain perguntou se a Condessa possuía cavalos e armas.
— Ela tem os melhores que existem. — Respondeu a donzela.
— Por favor, vá e peça a ela que me empreste um cavalo e armas, para que eu possa ver este exército. — Solicitou Owain.
— Eu irei. — Disse a donzela.
Ela se dirigiu à Condessa e relatou o que Owain havia dito. A Condessa riu.
— Certamente — Respondeu ela — até darei a ele um cavalo e armas; ele nunca teve um cavalo e armas como esses antes, e fico feliz que eles sejam tomados por ele hoje, para que meus inimigos não os tomem à força amanhã. No entanto, não sei o que ele fará com eles.
A Condessa ordenou que trouxessem um belo corcel negro, sobre o qual havia uma sela de faia, além de uma armadura completa para ele e cavalo. Owain se armou, montou no cavalo e partiu, acompanhado por dois pajens completamente equipados com cavalos e armas. Quando chegaram perto do exército do Conde, não conseguiam ver seu início nem seu fim. Owain perguntou aos pajens onde estava o Conde.
— Naquela tropa ali. — Responderam eles. — Onde há quatro estandartes amarelos. Dois deles estão à frente e dois atrás dele.
— Agora — ordenou Owain — retornem e me esperem perto do portão do castelo.
Eles fizeram o que lhes foi pedido e Owain avançou até encontrar o Conde. Owain derrubou o Conde do cavalo, virou o animal em direção ao castelo e, com dificuldade, levou o Conde até o portão, onde os pajens o aguardavam. Assim, entraram. Owain apresentou o Conde, como um presente, à Condessa, dizendo:
— Eis aí uma compensação pelo seu abençoado bálsamo.
O exército se acampou ao redor do castelo. O Conde devolveu à Condessa os dois condados que havia tomado dela como resgate por sua vida; e por sua liberdade, entregou-lhe metade de seus próprios domínios, todo o seu ouro, prata, joias e ainda deu reféns. Owain então partiu. A Condessa e todos os seus súditos o imploraram para que ficasse, mas Owain preferiu vagar por terras distantes e ermas.
Enquanto viajava, Owain ouviu um forte rugido vindo de uma floresta. Este foi repetido por uma segunda e terceira vez. Owain seguiu na direção do som e encontrou um enorme monte rochoso no coração da floresta, ao lado de uma grande rocha cinzenta. Havia uma fenda na rocha, dentro da qual morava uma serpente. Perto da rocha, estava um leão negro que, toda vez que tentava se afastar, era atacado pela serpente. Desembainhando sua espada, Owain aproximou-se e, quando a serpente saltou para atacar, acertou-a com a lâmina, cortando-a ao meio. Limpou sua espada e prosseguiu em seu caminho, como antes, mas o leão, grato, o seguiu, brincando ao seu redor como se fosse um galgo treinado.
Juntos, prosseguiram durante o dia até a noite. Quando foi hora de Owain descansar, desmontou e soltou seu cavalo num prado plano e arborizado. Fez fogo e, assim que a fogueira se acendeu, o leão trouxe-lhe lenha suficiente para durar três noites. O leão desapareceu, retornando pouco depois com um grande cervo, que depositou aos pés de Owain. Owain preparou o cervo, esfolando-o e colocando pedaços da carne em espetos ao redor do fogo. O restante do cervo ele deu ao leão para comer. Enquanto fazia isso, ouviu um suspiro profundo perto dele, seguido por um segundo e um terceiro. Chamou, perguntando se o suspiro vinha de um ser humano, e recebeu a resposta que sim.
— Quem és tu? — Perguntou Owain.
— De fato — disse a voz — eu sou Luned, a dama de companhia da Condessa da Fonte.
— E o que fazes aqui? — Indagou Owain.
— Estou presa. — Respondeu ela. — Por causa do cavaleiro que veio da Corte do Rei Arthur e casou-se com a Condessa. Ele passou pouco tempo com ela antes de retornar à Corte de Arthur, de onde nunca mais voltou. E era meu maior amigo no mundo. Dois pajens caluniaram-no, chamando-o de traidor. Eu os desafiei, dizendo que ambos juntos não eram páreo para ele. Por isso, me prenderam na cela de pedra e ameaçaram me matar, a menos que ele viesse me libertar pessoalmente. O dia da execução está chegando, será depois de amanhã. Não tenho ninguém para enviar em busca dele por mim. Seu nome é Owain, filho de Urien.
— E estás certa de que se esse cavaleiro soubesse de tudo isso, ele viria ao teu resgate?
— Estou absolutamente certa disso. — Disse ela.
Quando a carne no espeto estava cozida, Owain dividiu-a entre ele e a donzela. Após a refeição, ambos conversaram até o amanhecer. Na manhã seguinte, Owain perguntou à donzela se havia algum lugar próximo onde poderia conseguir comida e abrigo para aquela noite.
— Existe, senhor. Atravesse para o outro lado do rio e siga em frente, em breve verás um grande castelo com muitas torres. Seu senhor é o homem mais hospitaleiro do mundo. Poderás passar a noite lá.
A vigília mantida pelo leão sobre Owain naquela noite foi mais rigorosa do que qualquer sentinela jamais havia mantido sobre seu senhor.
Owain preparou seu cavalo, cruzou o vau e chegou ao castelo. Foi recebido com grande honra. Seu cavalo foi bem cuidado, com fartura de forragem à disposição. O leão, então, deitou-se no cocho do cavalo, impedindo que qualquer pessoa se aproximasse. O tratamento que Owain recebeu ali foi diferente de tudo que já experimentara; todos pareciam abatidos, como se a morte pairasse sobre eles. Quando se sentaram para comer, o Conde se acomodou ao lado de Owain, e a única filha do Conde sentou-se do outro lado. A jovem era de uma beleza que Owain jamais tinha visto. O leão se posicionou aos pés de Owain, que o alimentou com partes de sua refeição. E ele nunca tinha visto tamanha tristeza. No meio da refeição, o Conde agradeceu a presença de Owain.
— Pois bem — respondeu Owain — é hora de se alegrarem.
— Deus sabe — disse o Conde — que a tua chegada não é a fonte de nossa tristeza. Temos motivos suficientes para a nossa preocupação.
— Quais seriam? — Perguntou Owain.
— Tenho dois filhos — o Conde começou — e ontem eles foram à montanha para caçar. Há um monstro na montanha, que mata e devora homens, e ele sequestrou meus filhos. Estabeleceu que amanhã estará aqui, ameaçando matar meus filhos diante dos meus olhos, a menos que eu entregue minha filha a ele. Parece um homem, mas é grande como um gigante.
— Realmente — disse Owain — isso é lamentável. E o que pretendes fazer?
— Deus sabe. — Respondeu o Conde. — Prefiro que meus filhos sejam mortos contra a minha vontade, do que entregar minha filha voluntariamente para ele desonrar e matar.
Posteriormente, eles conversaram sobre outras coisas, e Owain passou a noite ali.
Na manhã seguinte, ouviram um grande clamor, causado pela chegada do gigante com os dois jovens. O Conde estava ansioso, tanto para proteger seu castelo quanto para libertar seus filhos. Então, Owain vestiu sua armadura e saiu para enfrentar o gigante, seguido pelo leão. Ao ver Owain armado, o gigante avançou para atacá-lo. O leão lutou contra o gigante com mais ferocidade do que Owain.
— Realmente — disse o gigante — não teria problemas em lutar contigo, se não fosse pelo animal que está contigo.
Então, Owain levou o leão de volta ao castelo e fechou a porta, retornando para lutar contra o gigante. O leão, entretanto, rugiu alto, percebendo que Owain estava em dificuldades. Escalou até o topo do salão do Conde, e dali até o topo do castelo, de onde saltou das muralhas para se juntar a Owain. Com um golpe de sua pata, o leão rasgou o gigante do ombro ao quadril, expondo seu coração. O gigante caiu morto. Então, Owain devolveu os dois jovens ao seu pai.
O Conde implorou a Owain para que ficasse com ele, mas Owain recusou, prosseguindo em direção ao campo onde Luned estava. Ao chegar lá, deparou-se com uma grande fogueira acesa, e dois jovens de belos cabelos acaju encaracolados conduzindo a donzela até a fogueira. Indagou a eles sobre a acusação contra ela, e eles explicaram sobre a situação que ela se encontrava, tal como Luned havia feito na noite anterior.
— E — disseram — Owain falhou com ela, por isso vamos queimá-la.
— Realmente — respondeu Owain — ele é um excelente cavaleiro, e fico surpreso que não tenha vindo resgatá-la ao saber de tal perigo. No entanto, se aceitarem a minha oferta, lutarei com vocês em seu lugar.
— Aceitamos — responderam os jovens — por quem nos criou.
E eles atacaram Owain, que sofreu grande pressão por parte deles. Nesse momento, o leão veio em auxílio de Owain, e juntos conseguiram subjugar os jovens. Eles protestaram:
— Senhor, o acordo era que lutaríamos apenas contigo, e é mais desafiador enfrentar aquele animal do que lutar contra ti.
Então, Owain colocou o leão onde a donzela estava presa, bloqueando a porta com pedras, e retomou a luta contra os jovens. No entanto, Owain não estava em sua força habitual e foi pressionado pelos dois jovens. O leão rugiu incessantemente ao ver Owain em apuros, rompeu a parede até encontrar uma saída, e lançou-se sobre os jovens, matando-os instantaneamente. Dessa forma, Luned foi salva de ser queimada.
Depois de derrotar os jovens e salvar Luned da terrível ameaça de ser queimada, Owain retornou com ela aos domínios da Condessa da Fonte. Ao partir dali, levou a Condessa consigo para a Corte do Rei Arthur, onde ela se tornou sua esposa e permaneceu ao seu lado pelo resto de sua vida.
Mas Owain ainda tinha uma última missão, ele decidiu ir à Corte do homem negro selvagem. Lá, ele enfrentou uma intensa batalha com o selvagem e seu leão, que permaneceu leal ao cavaleiro. Ao chegar à corte do selvagem, entrou na sala onde avistou vinte e quatro damas, as mais belas que se poderia imaginar. Entretanto, suas vestes não valiam nem vinte e quatro centavos, e carregavam uma tristeza profunda. Indagado por Owain, elas revelaram a causa de sua dor:
— Somos filhas de Condes e viemos para cá com nossos maridos, a quem amávamos muito. Fomos recebidas com honra e alegria, porém, enquanto estávamos em torpor, o demônio que governa este castelo assassinou todos os nossos maridos, roubando-nos cavalos, roupas, ouro e prata. Os corpos de nossos maridos permanecem aqui, entre muitos outros. Esta, senhor, é a causa de nossa tristeza. Lamentamos sua chegada, pois tememos que o mal te aconteça.
Owain entristeceu-se com suas palavras e, ao deixar o castelo, encontrou-se com um cavaleiro que se aproximava. Este o cumprimentou com amabilidade e alegria, como se fosse um irmão, era o selvagem homem negro.
— De fato — retrucou Owain — não estou aqui buscando tua amizade.
— De fato — respondeu o outro — então não a encontrarás.
Com isso, ambos entraram em combate, lutando ferozmente. Owain saiu vitorioso, amarrando as mãos do inimigo às costas. Então, o selvagem homem negro suplicou por sua vida:
— Senhor Owain, foi predito que virias aqui e me vencerias, e assim o fizeste. Fui um ladrão nesta terra, e minha casa foi refúgio de saques. Porém, se me poupares a vida, tornar-me-ei guardião de uma Hospedaria em auxílio aos necessitados e manterei esta casa como um refúgio para os fracos e fortes pelo resto de meus dias, em nome de tua alma.
Owain aceitou sua proposta e lá pernoitou.
No dia seguinte, reuniu as vinte e quatro damas, seus cavalos, suas roupas, e seus bens e joias, e partiu com elas para a Corte do Rei Arthur. Se antes Arthur se alegrou ao reencontrá-lo, agora a alegria era ainda maior. Das damas, aquelas que desejaram permanecer na corte de Arthur, lá ficaram; as que desejaram partir, partiram.
A partir daquele momento, Owain viveu na corte de Arthur, muito amado, como chefe de seu lar, até que partiu com seus seguidores — o exército de trezentos corvos que Kenverchyn lhe deixara. Onde quer que Owain fosse com eles, saía vitorioso.
E esta é a história da DAMA DA FONTE.