A vida que conhecemos — e a que não conhecemos
Quase tudo o que sabemos sobre Chrétien de Troyes vem dos prólogos de seus próprios romances. Seu nome — Crestien de Troies em francês antigo — significa literalmente “cristão de Troyes”, e como sugeriu Urban T. Holmes III, pode ter sido um pseudônimo ou apelido literário. Gaston Paris especulou que ele pode ter servido como heraut d’armes (arauto de armas) na corte de Champagne.
O que é certo: entre 1160 e 1172, Chrétien serviu na corte de Marie de Champagne — filha de Aliénor d’Aquitaine e do rei Luís VII da França, casada com o conde Henrique I de Champagne em 1164. Marie era neta de Guilherme IX de Aquitaine, o primeiro trovador provençal, e filha da mulher mais poderosa da Europa. Foi ela quem encomendou a Chrétien o Lancelot — e ele declara no prólogo que Marie lhe forneceu “tanto a matière quanto o san” (tanto o tema quanto o tratamento).
Depois, Chrétien passou ao serviço de Philippe d’Alsace, conde de Flandres (1143–1191), a quem dedicou Perceval — “li cuens Phelipes de Flandres, qui mialz valt ne fist Alixandres” (“o conde Filipe de Flandres, que vale mais do que Alexandre”). Philippe morreu de peste durante a Terceira Cruzada em 1191. A morte de Chrétien é geralmente situada no mesmo período — um continuador de Perceval confirma que “a morte do poeta impediu-o de completar a obra.”
Os textos de Chrétien revelam uma educação erudita, provavelmente monástica. Seus versos citam Ovídio (as Metamorfoses e as Heroides), aludem à Eneida e demonstram conhecimento de retórica latina. No prólogo de Cligés, ele lista suas obras anteriores — quatro adaptações de Ovídio, das quais sobrevive apenas Philomela — e menciona uma versão de Tristão e Isolda que, segundo ele próprio, não foi bem recebida.
Foster Guyer demonstrou a influência ovidiana específica em Yvain: “Yvain estava cheio de dor e mostrava os sintomas de amor ovidianos — chorar e suspirar tão amargamente que mal podia falar. Declarou que jamais ficaria longe um ano inteiro, usando palavras como as de Leandro na Epístola XVII de Ovídio: ‘Se eu tivesse as asas de uma pomba / para voar de volta a ti quando quisesse / muitas e muitas vezes eu viria.’”
A língua de Chrétien é o francês antigo vernacular, marcado por traços do dialeto champanês — relativamente próximo do “padrão” parisiense da época.
Os cinco romances
Erec e Enide (c. 1170) — o mais antigo romance arturiano existente. Na corte de Cardigan, Erec encontra Enide, casa-se e comete o pecado imperdoável da cavalaria: para de lutar. Até que Enide, em lágrimas, diz: “Ai de mim, que tristeza eu ter deixado meu país! O que vim buscar aqui? A terra deveria me engolir por direito quando o melhor cavaleiro abandonou completamente todos os seus feitos de cavalaria por minha causa.”
Cligés (c. 1176) — o anti-Tristão. Fenice recusa a solução de Isolda: “Nunca poderia me resignar a viver a vida que Isolda viveu. O amor dela era vil; seu corpo pertencia a dois, mas seu coração era de apenas um.” É neste romance, no verso 40, que aparece pela primeira vez o nome Camelot na literatura.
Yvain, o Cavaleiro do Leão (c. 1177–1181) — considerado por Ruth Harwood Cline a obra mais perfeita de Chrétien. Yvain enlouquece na floresta, resgata um leão de uma serpente de fogo, e o leão o segue em gratidão — ajoelhando-se e derramando lágrimas. Quando Yvain desmaia e sua espada lhe corta o pescoço, o leão pega a lâmina entre os dentes para se matar também.
Lancelot, o Cavaleiro da Carreta (c. 1177–1181) — escrito simultaneamente com Yvain, sob encomenda de Marie de Champagne. Lancelot persegue o raptor de Guinevere e encontra uma carreta de condenados. A razão diz para não subir; o amor ordena. Lancelot hesita dois passos — e essa hesitação será cobrada. Chrétien delegou os últimos mil versos a Godefroi de Leigni. Não se sabe se por desinteresse, desaprovação do tema adúltero, ou outro motivo.
Perceval, o Conto do Graal (c. 1181–1190) — dedicado a Philippe de Flandres. O jovem galês criado na Gaste Forest confunde cavaleiros com anjos: “Ha! sire Dex, merci! Ce sont ange que je voi ci.” Na corte do Rei Pescador, ele vê uma donzela carregando o Graal — “une si granz clartez an vint, ausi perdirent les chandoiles lor clarté come les estoiles qant li solauz lieve et la lune” — e cala. É o silêncio mais consequente da história da literatura. Chrétien morreu sem terminar. Quatro continuações somaram 54.000 versos adicionais.
O impacto: de Wolfram a Tolkien
A influência de Chrétien é verificável por fontes diretas. Três das maiores obras da literatura médio-alto-alemã — o Parzival de Wolfram von Eschenbach, o Erec e o Iwein de Hartmann von Aue — são adaptações declaradas de Perceval, Erec e Yvain. Os Três Romances Galeses associados ao Mabinogion (Peredur, Geraint, Owain) possuem relação direta com seus textos, embora a natureza exata dessa relação permaneça debatida.
Chrétien também tem a distinção de ser o primeiro escritor a mencionar o Santo Graal (Perceval), Camelot (Lancelot/Cligés) e o caso de amor entre Guinevere e Lancelot — três conceitos de reconhecimento universal até hoje. Sem ele, não haveria matéria arturiana madura para Thomas Malory compilar no Le Morte d’Arthur (1485), nem para T. H. White subverter em The Once and Future King (1958), nem para a tradição que alimentou Wagner, Tennyson e toda a fantasia moderna.
William Wistar Comfort sintetizou: Chrétien se distingue como “o artista literário mais significativo e o fundador de uma tradição literária preciosa que o diferencia de todos os outros poetas das raças latinas entre o fim do Império e a chegada de Dante.”
Karl Uitti foi além: “Com a obra de Chrétien abre-se uma nova era na história da narrativa europeia. Este poema reinventa o gênero que chamamos de romance narrativo; em alguns aspectos importantes, ele também inaugura o romance vernacular.” Chrétien criou narrativas com começo, meio e fim — estrutura tripartita que é, em grande parte, a razão pela qual ele é visto como um escritor de romances cinco séculos antes de o romance existir como gênero.